segunda-feira, 14 de julho de 2008

Empreendedorismo: que bicho é esse?

Por Fernando Gomes e Rafael Achutti, estudantes de Relações Públicas da UFRGS

A frase de George Bernard Shaw define muito bem o que é o espírito empreendedor: Alguns homens vêem as coisas como são, e perguntam: Por quê?. Eu sonho com as coisas que nunca existiram e pergunto: Por que não?


O empreendedorismo tem sido a saída mais rápida e prática para solucionar a crise de emprego. Mas será que realmente é a melhor saída?

Pesquisas recentes realizadas nos Estados Unidos mostram que o sucesso nos negócios depende principalmente de nossos próprios comportamentos, características e atitudes, e não tanto do conhecimento técnico de gestão quanto se imaginava até pouco tempo atrás. No Brasil, apenas 14% dos empreendedores têm formação superior e 30% sequer concluíram o ensino fundamental, enquanto que nos países desenvolvidos, 58% dos empreendedores possuem formação superior. Quanto mais alto for o nível de escolaridade de um país, maior será a proporção de empreendedorismo por oportunidade.

Conversando com diversos alunos, ex-alunos e professores da Fabico,
descobrimos que o empreendedorimo fabicano existe, mas na maioria das vezes só é descoberto após a conclusão do curso, quando se tem que optar pelo trabalho assalariado ou pelo próprio negócio. Para Fernanda Vier sócia da agência Doxxa e Presidente da Associação dos Jovens Empresários de Porto Alegre, ser empregado também tem risco, mas se não der certo, a pessoa recebe os direitos todos e vai atrás de um novo emprego”.

O ex-fabicano e agora Professor, Alan Lenz, aponta três opções para quem se forma na Fabico: 1) ser empregado de alguma empresa privada ou do governo, através de concurso público, garantindo estabilidade; 2) abrir o próprio negócio ou 3) trocar de profissão.


Mas a terceira alternativa dada pelo Professor Alan não significa que os anos de faculdade foram em vão. É o que mostra o exemplo de Guilherme Carlin, hoje jornalista e dono da Chica Cachaça Artesanal. Segundo Carlin, atualmente em Porto Alegre há um nicho de mercado estabelecido por nós onde existem pouquíssimos concorrentes com produtos similares (cachaça aromatizada naturalmente). Em 3 anos de empreendimento o principal objetivo foi trabalhar a marca Chica, tanto que, contabiliza Carlin, já gastaram mais em propaganda e marketing do que os lucros obtidos. Mas ele reconhece a importância desta estratégia ao receber pedidos de alguns estados do Nordeste. Assim, vai expandindo sua carteira de clientes, que é formada hoje por muitos fabicanos - provando que o fato de ser jornalista não necessariamente o obrigaria a empreender nesta área - o curso, afinal, já ajuda criando uma boa rede de relacionamento.

A vontade de ser dono do seu próprio negócio, de acreditar e ver suas idéias irem adiante, não esbarrando em expressões do tipo esse não é o perfil do público, fez com que Cleyton Arghiropol, ex-aluno de Publicidade e Propaganda e hoje dono da agência Acima Interactive, especializada em comunicação na web, empreendesse. Ele diz que a relação com os professores e a instituição não o motivou muito, e que os colegas então, parece que todos estavam ou estariam satisfeitos com a posição de serem assalariados. Vi a maioria deles já estagiando ou focando em uma área específica e vejo muitos deles hoje enterrados nas mesmas ocupações. Segundo ele a biblioteca foi uma ótima fonte de referências, onde passava muitas horas do seu dia lendo sobre outras áreas que não apenas da Comunicação, como por exemplo Administração, Gestão, Marketing, Finanças, etc.

H
oje em dia, além das bibliotecas, a internet é uma ótima fonte de referências e de ajuda para se abrir uma empresa. O site do Sebrae reúne todas as informações necessárias, desde como proceder para o registro até a elaboração de um plano de negócios, além de apresentar cases em diversas áreas. Vale a pena dar uma conferida.


O
utra ótima alternativa para quem quer começar e não dispõe de muito capital inicial, são as incubadoras. Segundo a Anprotec, o número de incubadoras subiu para 380 em 2006, contra 37 em 1996. Um crescimento impressionante que mostra a força e a aposta nos novos empreendimentos. As incubadoras muitas vezes oferecem estrutura completa para montagem de escritório, além de todo apoio físico, intelectual e estrutural. A incubadora de Design da Feevale, onde está instalada a revista O Dilúvio, provê para os incubados aulas de gestão, marketing, finanças dentro do PROCAPE (Programa de Capacitação ao Empreendedor).

Enquanto era aluno da Fabico, Tiago Jucá criou um projeto experimental, em forma de newsletter, mais como brincadeira. Foi crescendo, virou site, depois impresso. Após 3 anos, com um coletivo maior, registramos a empresa, entramos na incubadora e hoje já damos palestras em eventos do SEBRAE sobre Empreendedorismo Jovem.

A UFRGS oferece, através da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico (SEDETEC), a Maratona de Empreendedorismo, um projeto que já está na sua oitava edição e busca proporcionar um conhecimento integrado do processo empreendedor e dar uma visão empreendedora e gerencial ao desenvolvimento de novos negócios. Dentre as atividades desenvolvidas pelo projeto, estão palestras que são abertas ao público em geral.

Andréa Fortes, atualmente sócia da agência Mais, sente que na Fabico as pessoas são preparadas para serem empregados, dentro de um perfil normal de vínculo, dando a idéia de que no Brasil quem empreende é um pouco tolo porque as dificuldades são muitas. Ela afirma que se a universidade incentivasse os alunos e ensinasse o caminho das pedras, seria uma bela iniciativa.


O
apoio dos professores é importante, mas a maioria deles deve pensar: Ah, lá vem os alunos com essas idéias piradas, não vou perder meu tempo. Nem todo aluno está apenas pensando em ter uma banda ou realizar uma festinha, ele pode estar planejando o projeto de toda sua vida, e pra isso é preciso a ajuda de pessoas experientes. Com certeza o apoio dos professores Ungaretti, Ilza e outros foi fundamental para chegarmos aqui, desabafa Jucá.


D
e fato deve haver uma grande mudança de comportamento. De todos, para o futuro do empreendedorismo no país, a começar pela Universidade que é o laboratório pensante da sociedade. A Universidade deve formar pessoas ousadas, criativas, inovadoras, não apenas mão-de-obra para o mercado, porque ele muda muito: cada novo software pode extinguir profissões e exigir novos domínios.

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Crises políticas.

Por Caroline Cabalheiro, João Colombo e Juliana Marchioretto, estudantes de Relações Públicas da UFRGS

sexta-feira, 11 de julho de 2008

As Relações Públicas pelo mundo.

sexta-feira | 11 de julho de 2008

P
or Mariana Marchant, Natali Soza, Roger Cruz e Thirza Moreira, estudantes de Relações Públicas da UFRGS


Também servimos cafezinho em outros países?

Que a profissão de Relações Públicas ainda não possui uma ampla difusão de suas atividades no Brasil todos sabem. Que apenas nos últimos anos as empresas começaram a se dar conta da importância deste profissional para o bom funcionamento dos relacionamentos com seus diversos públicos, também. Agora, fora do Brasil, onde a profissão já existe há bem mais tempo, será que a situação no mercado é diferente da brasileira? Como as oportunidades funcionam no exterior? Como a profissão de Relações Públicas é vista fora do Brasil?

Na Argentina, onde o fabicano Luís Augusto Maffini está realizando intercâmbio na Universidad Nacional de Entre Rios – UNER - neste semestre, há uma confusão entre a profissão de Relações Públicas e a função de comunicador. Não há nenhuma legislação que delimite e aponte as atividades do Jornalista, do Publicitário e do Relações Públicas. Não é exigido nenhum registro profissional para desempenharem suas funções. O estereótipo de que qualquer um pode fazer comunicação nas organizações ou nos meios de comunicação é mais forte na Argentina do que no Brasil. Também é muito comum depois de formados, os RRPP trabalharem como promoters de casas noturnas, academias de ginástica, situação não muito diferente daqui. Até mesmo nos cursos não há uma unificação com o nome e o conteúdo oferecido. Na UNER, por exemplo, não há o curso de Relações Públicas e nem de Publicidade e Propaganda. As habilitações do curso de comunicação são: Periodismo; Comunicación y Procesos Culturales e Comunicación y Educación. Na Argentina não são usadas as mesmas terminologias e programas semelhantes, o que torna ainda mais confuso o papel e a função do profissional quando sai da universidade.

Luís Augusto está cursando disciplinas que são válidas para o curso da UFRGS de RRPP, e estão inseridas na habilitação de Comunicación y Procesos Culturales, que são: Historia das Idéias Econômicas, Sociais e Políticas; Problemas Contemporâneos em Comunicação Institucional e Comunicação e Cultura. As leituras exigidas são bastante densas, e os autores trabalhados são conhecidos somente na pós-graduação brasileira. Todos os cursos de pós-graduação - especialização, mestrado e doutorado - são pagos.

O sistema de ensino superior mostra-se bem diferente do brasileiro. Existem universidades públicas e privadas, como no Brasil, a diferença é que qualquer pessoa que termine o segundo grau pode se inscrever na universidade pública, não há vestibular ou nenhum outro exame seletivo. Isso acarreta um grande número de profissionais no mercado, sendo, portanto um nicho bem competitivo. Independente da procura por determinado curso, a legislação nacional se compromete em abrigar a demanda e proporcionar o estudo gratuito a qualquer cidadão. Ingressando na universidade pública, é feito um ano de curso de nivelamento da turma, com disciplinas de Ensino Médio. Aqueles que nas avaliações atingirem a média estipulada pela faculdade, que pode ser cinco, seis ou sete, iniciam as matérias da graduação elegida, independente de serem, dez, cinqüenta ou todos os alunos que atingiram esse mínimo.

Outro ponto onde os hermanos estão muito à frente do Brasil é em relação ao custo de vida de um estudante. Nenhum livro e outros materiais pedagógicos, por lei federal, são taxados por impostos. O preço das cópias e de transporte público, por exemplo, é a metade do Brasil.

A profissão na Europa

Já a Relações Públicas Erica Machado apresenta uma outra imagem do profissional na Europa. Formada na Fabico em 2007 e pós-graduada em Public Relations Management (Gerenciamento de Relações Públicas) na Leeds Metropolitan University, na cidade de Leeds na Inglaterra, afirma que a área de Relações Públicas na Inglaterra está bem desenvolvida. Sustenta ser difícil até traçar uma comparação deste cenário com o brasileiro, tal é a distinção de atuação do profissional entre os dois países. A participação do profissional de Relações Públicas é fortemente valorizada por lá, atuando tanto nas estratégias de negócios, valorização da marca, como em funções de comunicação interna e outras estratégias de diálogo com outros públicos: responsabilidade social e atividade política. Enquanto isso, no mercado brasileiro, insiste-se em nomear de Marketing toda função que seja de diálogo, comunicação. Ainda que muitos digam não importa a nomenclatura, mas sim o perfil do profissional que é procurado, ainda é questionada se esta falta de cargos de Relações Públicas é desconhecimento do que o profissional realiza, ou uma falta de valorização para o papel estratégico que exercemos, afirma a profissional, que voltou da Europa em agosto deste ano e está analisando propostas para reingresso no mercado brasileiro.

Cita também a oportunidade de participar do webinar Towards a new global Public Relations (Para uma nova Relações Públicas global) ministrado por James Grunig, Anne Gregory e outros profissionais. Destaca alguns pontos:

Na Europa as Relações Públicas são praticadas há 150 anos. No entanto a definição de conceitos e modelos da atividade na Europa somente iniciou em 1998, com os trabalhos de Dejan Vercic – pesquisador premiado em 2001, com a medalha Alan Campbell Johnson – do Instituto de

Relações Públicas do Reino Unido.

Ainda existe uma sensível diferença do modelo de RP praticado nos EUA para o modelo Europeu, a Inglaterra tende a desenvolver uma visão mais social da profissão.

A Inglaterra é a principal indústria de Relações Públicas na Europa. Buscando traçar um perfil mais detalhado da visão do profissional, Anne Gregory, professora da Leeds Metropolitan University, desenvolveu uma pesquisa em 2003, intitulada Patterns of successful PR among Britain’s Most Admired companies and public sector organizations (Modelos de Relações Públicas bem sucedidos entre as empresas britânicas mais admiradas e organizações do setor público). Foram 200 questionários distribuídos entre os mais conceituados profissionais na Grã-Bretanha, incluindo instituições públicas e privadas. Os resultados explicitam a valorização da atividade no país:

34% do setor privado e 5% do setor público investem mais de um milhão de libras esterlinas (quatro milhões de reais) por ano em atividades de Relações Públicas.64% dos RRPP entrevistados se reportam diretamente ao CEO (Chief Executive Organization), quase metade está na direção.

A principal atividade para o profissional no setor privado é reporte financeiro, seguido por controle de crises, tendo em terceiro lugar o controle da imagem e reputação da empresa. No setor público, proteção de imagem vem em primeiro lugar, repetindo o segundo lugar (controle de crises) e terceiro fica com relacionamento com a mídia.

Segundo a mesma professora, os comunicadores de corporação estão crescendo em poder e prestígio:

Quase metade é membro da direção.

A maioria tem freqüente acesso ao CEO e tem liberdade para se reportar diretamente aos líderes da empresa.

A maior parte dos orçamentos de comunicação é mantida ou aumentada anualmente.

Segundo Carlos Eduardo Mestieri, no livro Relações Públicas: Arte de Harmonizar Expectativas, o mercado está propício para a nova era de desenvolvimento das Relações Públicas, porém a competição é cada vez maior e hoje, mais do que nunca, o mercado passa a exigir competência e conhecimento multidisciplinar, isso em qualquer lugar ou país em que exista o mercado de Relações Públicas.

Pode-se concluir que a maturação de ferramentas de gestão e das próprias Relações Públicas é inerente à própria maturação de mercados e do perfil cultural dos países em análise. Ao observar a imagem da profissão na Inglaterra, nota-se por trás disso um mercado desenvolvido, lapidado desde as Revoluções Industriais no século XVIII. Não se pode exigir que no Brasil ou mesmo na Argentina, de industrialização e crescimento comercial recente, exista o mesmo nível de compreensão da profissão, como citado na Inglaterra e também nos Estados Unidos, outro pólo de destaque da profissão.

Enquanto alguns reclamam que a profissão não é valorizada no Brasil, outros agem para se tornarem competitivos neste cenário. A quantidade de tempo despendido em reclamações minha mãe não sabe o que faço é proporcional ao tempo que se perde para questionar: o que será feito para melhorar essa questão e fazer que a profissão seja devidamente reconhecida?. O futuro dependerá da visão daqueles de atuam na área e os estudantes, como profissionais em formação, devem observar esse desconhecimento da atividade como um ambiente de oportunidades, de possibilidade de crescimento e não como um problema existencial.

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